Áudios e vídeos que viralizam nas redes sociais afirmam que ratos, cobras e outros animais são triturados com a cana e seus resíduos chegam ao produto final. Entenda o verdadeiro processo industrial e por que essa alegação é falsa.
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Periodicamente, ressurge nas redes sociais e em grupos de mensagens um relato alarmante que causa repulsa e questionamentos sobre a qualidade do açúcar que consumimos. A história, muitas vezes contada em tom de denúncia por um suposto ex-funcionário de usina, afirma que animais como ratos, cobras, sapos e aranhas, presentes nos canaviais, são inevitavelmente moídos junto com a cana de açúcar.
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O boato vai além, detalhando que, embora a parte sólida desses animais seja filtrada, seus "líquidos", como o sangue, se misturariam ao caldo de cana, sendo posteriormente "neutralizados" por produtos químicos, mas permanecendo no açúcar que chega à nossa mesa. Apesar da convicção na narrativa, a informação é categoricamente falsa e não sobrevive a uma análise do moderno processo de fabricação do açúcar.
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É inegável que a lavoura de cana de açúcar é um ecossistema rico e abriga uma diversa fauna. A presença de pequenos animais nos canaviais é uma realidade. É justamente por isso que a indústria sucroalcooleira desenvolveu, ao longo de décadas, um processo com múltiplas barreiras de controle para garantir a pureza e a segurança do produto final.
Foto: Reprodução
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A ideia de que impurezas tão grosseiras pudessem passar por um sistema industrial de alta tecnologia e rigoroso controle sanitário é um mito. O açúcar, como qualquer alimento processado, está sujeito a legislações e fiscalizações de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Agricultura, o que torna a contaminação descrita no boato industrialmente inviável.
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Da Lavoura à Usina: O Verdadeiro Processo de Fabricação do Açúcar
Para desmistificar essa lenda urbana, é preciso conhecer as etapas que transformam a cana de açúcar nos cristais brancos que adoçam nosso dia a dia.
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1. A Colheita e a Recepção na Usina
O processo começa na colheita, que hoje é em grande parte mecanizada. Ao chegar na usina, os caminhões descarregam a cana em mesas alimentadoras. Neste ponto, inicia-se a primeira fase de limpeza.
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2. A Primeira Barreira: Lavagem e Limpeza a Seco
Antes de qualquer moagem, a cana passa por um sistema de limpeza. Muitas usinas utilizam a "lavagem a seco", com potentes jatos de ar que removem palha, folhas e detritos mais leves. Outras utilizam a lavagem com água, que retira terra, pedras e outras impurezas mais pesadas. Essa é a primeira barreira que eliminaria qualquer animal de porte visível que pudesse ter chegado com a carga.
Foto: Reprodução
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3. A Moagem: Extração do Caldo Bruto
Após a limpeza, a cana é picada e desfiada por grandes rolos dentados e, em seguida, prensada em uma série de potentes cilindros de moagem, as "moendas". Esse processo extrai o caldo de cana, conhecido tecnicamente como "caldo bruto" ou "garapa". A parte sólida que sobra, o bagaço, é geralmente usada como combustível para gerar energia para a própria usina.
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4. O Tratamento do Caldo: O Ponto-Chave da Purificação
Aqui reside o principal argumento que derruba o mito. O caldo bruto que sai da moenda é turvo e cheio de impurezas finas, como fibras de bagaço, terra, areia e outros materiais orgânicos. Ele precisa passar por um tratamento rigoroso antes de se tornar açúcar.
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5. A Química da Pureza: Caleagem e Sulfitação
O caldo é aquecido e recebe um tratamento químico. O mais comum é a "caleagem", onde se adiciona leite de cal (hidróxido de cálcio). A cal ajusta o pH do caldo e reage com as impurezas, fazendo com que elas se aglomerem em partículas maiores e mais pesadas, um processo chamado de floculação.
Foto: Reprodução
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6. Aquecimento e Decantação: Separando o Puro do Impuro
Após o tratamento químico, o caldo é enviado para grandes tanques chamados "decantadores". O aquecimento acelera o processo, e as impurezas aglomeradas (incluindo qualquer matéria orgânica que pudesse ter restado) decantam, formando um lodo denso no fundo do tanque.
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7. A "Prova Final": Desmentindo o "Caldo de Sangue"
É nesta etapa de decantação que a alegação sobre os "líquidos" dos animais é cientificamente invalidada. Qualquer proteína, como o sangue, seria desnaturada pelo calor e coagularia, sendo precipitada e removida junto com o lodo no fundo do decantador. Apenas o caldo claro e purificado, que fica na parte superior do tanque, segue para a próxima fase.
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8. Filtração Adicional
Para garantir a máxima pureza, o caldo clarificado ainda passa por sistemas de filtros, que retêm as partículas mais finas que não foram removidas na decantação.
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9. Evaporação e Concentração
O caldo agora puro, mas ainda muito diluído, passa por uma série de evaporadores que, sob vácuo, removem grande parte da água, transformando-o em um xarope concentrado.
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10. Cozimento e Cristalização
O xarope é bombeado para os "cozedores a vácuo", onde é ainda mais concentrado até o ponto exato em que o açúcar começa a se cristalizar. O resultado é uma massa de cristais de açúcar misturada com o licor-mãe (mel).
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11. Centrifugação: A Separação dos Cristais
Essa massa é enviada para centrífugas de alta velocidade. A força centrífuga separa os cristais de açúcar do mel que os envolve. O mel que sai desse processo é o melaço.
Foto: Reprodução
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12. Secagem e Embalagem
Finalmente, os cristais de açúcar, agora puros, úmidos e quentes, passam por secadores de ar quente e, em seguida, são resfriados e peneirados por tamanho antes de serem embalados.
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Qualidade Assegurada por Lei
Todo o processo é monitorado por laboratórios de controle de qualidade dentro da própria usina. As Boas Práticas de Fabricação (BPF) e sistemas de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) são implementados para cumprir as rigorosas normas sanitárias exigidas por lei.
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Portanto, a ideia de que resíduos de animais possam resistir a múltiplas etapas de limpeza, tratamento químico, aquecimento, decantação, filtração e centrifugação não tem qualquer fundamento técnico ou científico.
Embora o boato seja perturbador, os consumidores podem ter a certeza de que o açúcar que chega às suas casas passa por um dos processos industriais mais controlados e seguros do setor alimentício, garantindo um produto final livre de qualquer tipo de contaminação.
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