Por: Guilherme Gouvea

Publicado em

Pedofilia: "Paguei R$ 183 mil para proteger minha filha do pai"

Quando o pai de sua filha foi preso por abuso sexual infantil, Bethan* ficou horrorizada ao descobrir que ele ainda poderia ver a criança depois de ser libertado. Era um risco que ela não estava disposta a correr.

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Quando foi condenado por crimes de pedofilia há alguns meses, o pai da menina recebeu uma ordem que o proibia de ter qualquer contato futuro com crianças - mas essa proibição não se aplicava à própria filha.

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Ele e Bethan eram casados ​​quando a criança nasceu e, portanto, ele ainda mantinha os direitos parentais. Com isso, podia ao menos decidir sobre a saúde, a educação e as condições de vida de sua filha.

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Por tudo isso, Bethan estava “muito preocupada” com o que poderia acontecer quando ele sair prisão.

E, enquanto o ex-marido tivesse acesso à filha, ele poderia fazer com ela o que fez com as outras crianças de quem abusou.

“Eu nunca me perdoaria”, diz Bethan.

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Com o apoio dos pais, Bethan tomou a difícil decisão de pedir à Justiça que retirasse os direitos parentais do ex-marido e proibisse qualquer contato - direto, indireto e por meio das redes sociais - até a filha completar 18 anos.

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Apesar da gravidade dos crimes do seu ex-parceiro, Bethan foi informada de que este processo provavelmente seria difícil.

Durante o julgamento, ela o descreveu como "manipulador" e disse ter tido medo de que ele conseguisse convencer o tribunal de que estava arrependido.

Ela não teve direito a apoio judiciário e, mesmo antes da primeira audiência, os custos com advogados não paravam de aumentar.

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O caso de Bethan foi julgado em uma corte de Direito de família, onde são tratadas as disputas entre pais – muitas vezes envolvendo crianças vulneráveis.

Até recentemente, os casos eram ouvidos em privado, e os jornalistas não tinham permissão para divulgá-los.

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Mas, desde janeiro, repórteres credenciados foram autorizados a entrar nos tribunais de Direito de família em Leeds, Carlisle e Cardiff, na Inglaterra, o que permitiu um escrutínio mais minucioso das ações das autoridades locais e dos tribunais, sujeitos a regras rígidas de anonimato.

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Maior escrutínio dos tribunais
Em uma das audiências no tribunal, Bethan estava sentada atrás de uma divisória para não ser vista.

O pai de sua filha – que não tem advogado – participava por videoconferência da prisão, com a imagem exibida em um telão.

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Ele parecia pequeno, sentado atrás de uma mesa comprida, com papéis espalhados à sua frente.

Uma assistente social do Cafcass Cymru, o serviço de aconselhamento do tribunal de crianças e de família do País de Gales, também estava presente.

O ex-companheiro de Bethan disse ao Tribunal que aceitava estar preso por crimes de “natureza gravíssima” e disse que “queria estar presente para sua filha”, caso ela quisesse ter um relacionamento com ele.

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Ele tinha escrito cartas para ela todas as semanas, mas, atualmente, ainda não pode enviá-las.

Mais tarde, ele fez o que pareceu ser um apelo sincero: ele é um pai "que ama sua filha sem limites", disse com a voz embargada.

Para Bethan, foi “simplesmente insuportável” ouvir e “incrivelmente doloroso” tentar se reconciliar com este homem diante “dos horrores pelos quais ele fez aquelas crianças passarem”.

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A filha de Bethan é uma das mais de 80 mil envolvidas em processos privados de Direito de família.

Em 2022, o tempo médio do processo de direito de família privado na Inglaterra e no País de Gales era de cerca de dez meses, ou quase 45 semanas.

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É um sistema “em crise”, de acordo com a Law Society, a associação profissional de advogados da Inglaterra e do País de Gales.

Mas os direitos dos pais são “absolutos” por lei e só podem ser alterados por meio de ordem judicial, explica Hannah Markham, presidente da Ordem dos Advogados de Direito da Família.

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“Mesmo que alguém esteja na prisão por crimes de pedofilia muito graves, eles mantêm a responsabilidade parental”, diz ela, descrevendo Bethan como “corajosa” por ter prosseguido com o processo.

Após a primeira audiência, a assistente social passou algum tempo com Bethan e sua filha e visitou o pai na prisão.

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O caso avançou rapidamente, e, três meses depois, Bethan voltou ao Centro de Justiça da Família de Cardiff.

O relatório da assistente social criticava fortemente o ex-marido de Bethan. Nele, ele diz que “lamenta não poder ser o pai que sua filha merece”, antes de agradecer ao tribunal.

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Ele disse esperar ser reavaliado quando for solto e solicitou um relatório anual detalhando sobre como está sua filha.

Para Bethan, esse tipo de contato indireto é inaceitável. Quando seu advogado questionou qual o valor que tal relatório teria, o pai interveio.

“Teria um enorme valor para mim”, afirmou.

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À medida que o caso avançou, os gastos de Bethan continuaram a crescer.

Para ajudá-la com as taxas, seus pais estenderam a hipoteca de sua casa, algo que “mudará significativamente seu futuro”, mas sua prioridade sempre foi proteger a família.

“Sinto muito pelas pessoas que não conseguem esse dinheiro”, diz o pai de Bethan. "Elas estão em uma situação horrível."

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Mundo das Utilidades

O caso “tomou conta” da vida da família, mas, comparado a muitos outros processos judiciais de família, avançou rapidamente.

O juiz decidiu que a menina deveria sempre morar com a mãe, enquanto a responsabilidade parental do pai é “completamente restrita”.

Bethan afirmou estar “extremamente aliviada”.

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Além dos crimes pelos quais está preso, o juiz disse que o homem também confessou ter assistido a videos de pedofilia com incesto e ter aliciado um jovem vulnerável.

Ele representa “um risco extremamente alto”, afirmou o juiz, que não aceitou o pedido do pai de receber relatórios anuais.

Foi concedida uma ordem de proibição, que tornará mais difícil para o ex-marido de Bethan solicitar a alteração da decisão do juiz assim que ele for libertado da prisão.

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Ele será informado se sua filha estiver com uma doença terminal ou se eles se mudarem para um país diferente, mas não onde ela e sua mãe estão.

Para Bethan – que passou horas pesquisando sobre Direito de família e leu muitos relatos de pais que não obtiveram a decisão que esperavam – é um “enorme alívio”.

“Fiquei muito grata”, diz ela.

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BibiCar

Os pais de Bethan também estão muito satisfeitos

“Pela primeira vez em três anos, libertaram a minha filha para poder criar a sua filha de uma forma normal, feliz e saudável”, diz a mãe de Bethan.

“Não podemos explicar o quão doloroso tem sido.”

Além do impacto emocional, a britânica também teve gastos significativos – de mais de 30 mil libras (mais de R$ 183 mil).

A família acredita que outros poderiam evitar processos judiciais igualmente dispendiosos se a lei fosse alterada para suspender automaticamente os direitos parentais de pais pedófilos condenados e apenas restaurá-los se o infrator recorrer à Justiça.

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O governo britânico disse à reportagem que está “revisando cuidadosamente a abordagem ao acesso dos pais para garantir que todas as crianças sejam mantidas seguras”.

Para Hannah Markham, mudar a assistência jurídica poderia ser uma forma mais rápida e eficaz de permitir que mais pais como Bethan recorressem aos tribunais - e ela espera que este caso sirva de precedente.

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“Quanto mais for publicado e falado, mais educará outras pessoas para que saibam que esta é a coisa certa a fazer”, diz ela.

Bethan e seus pais acreditam que a presença de jornalistas em tribunais trouxe mais transparência e será útil para outros no futuro.

A mãe de Bethan diz que a menina agora “pode ter uma infância normal – ela pode estar segura”.

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Um dia, Bethan diz que contará à filha sobre o pai e que o fará quando a menina tiver idade suficiente.

*Os nomes dos personagens nesta reportagem foram alterados para proteger sua privacidade.

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Irmãos Gonçalves

Fonte: BBC News Brasil


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