O Povo de Israel, facção criminosa investigada por dominar os presídios do Rio de Janeiro e suspeita de movimentar mais de R$ 67 milhões em golpes do falso sequestro em dois anos, já teria mantido contatos com o PCC, segundo o Ministério Público.
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O que aconteceu
Contatos foram feitos quando líder do Povo de Israel estava em uma unidade prisional fluminense na divisa com São Paulo. Segundo o MP do Rio, Avelino Gonçalves Lima, o Alvim, teria estabelecido vínculos com a facção criminosa paulista entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020, período em que estava preso na Cadeia Pública Inspetor Luis Fernandes Bandeira Duarte, em Resende (RJ).
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Nas conversas, Alvim teria autorizado o batismo de novos membros do PCC em internos nas unidades prisionais sob o seu domínio, indica investigação. O UOL procurou fontes ligadas à segurança pública de São Paulo, que irão apurar se houve contato entre a facção criminosa de São Paulo e o líder do Povo de Israel.
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Líder do Povo de Israel ficou em um presídio federal, unidades de segurança máxima para onde são levados presos de alta periculosidade. Alvim esteve na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR) por pouco mais de um mês, de 28 de junho a 2 de agosto de 2023. Depois, retornou ao sistema prisional fluminense ao ser transferido para o Complexo de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio.
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Ele ingressou no sistema prisional fluminense há 25 anos. Ficou foragido após ser beneficiado pela visita familiar em 2007 e só foi recapturado dois anos depois. Condenado a 46 anos de prisão, possui investigações por homicídio, roubo e estupro. Ordens sobre expulsão de membros, rebeliões, tentativas de fuga e crimes partem dele, segundo a investigação. A defesa dele não foi localizada.
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"O Povo de Israel vem cooptando membros no sistema prisional com essa ideia de cuidado com os presos contra a opressão do Estado, como o PCC fazia. Essa facção criminosa do Rio tem um líder que voltou de um presídio federal e que, supostamente, autoriza esses batismos do PCC." - Ivana David, desembargadora do TJ-SP especialista em investigações do crime organizado
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O que se sabe sobre o Povo de Israel
Com 18 mil membros em 13 unidades prisionais, facção supera a quantidade de faccionados do CV (Comando Vermelho) em presídios do Rio. De acordo com a Polícia Civil, a facção tem 43% do total de presos do sistema prisional no estado. Com isso, o efetivo desses internos citados com perfil neutro, sob influência do Povo de Israel, teria ultrapassado o percentual de faccionados.
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A facção surgiu há 20 anos nos presídios do Rio. O grupo era composto inicialmente por presos por estupro, tipo de crime que motiva o afastamento dos detentos, já que podem ser vítimas de agressão ou assassinatos por parte dos outros internos.
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Os membros do grupo criminoso usavam celulares dentro dos presídios. Os aparelhos eram usados para pedir dinheiro pelo resgate em um crime conhecido como falso sequestro ou "disque-extorsão", indica a Polícia Civil.
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Bloqueio de 84 contas bancárias. A decisão foi determinada pela Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa da Capital, que atendeu um pedido feito pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. As contas usadas para ocultar o dinheiro do crime entre janeiro de 2022 e maio deste ano movimentaram mais de R$ 67 milhões —média de R$ 2,4 milhões por mês.
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As contas beneficiadas incluíam empresas do setor de construção, do setor atacadista, uma joalheria, uma lotérica e um comércio. As transações foram feitas por 1.600 pessoas físicas e 200 pessoas jurídicas, segundo a investigação.
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"[A extorsão] é realizada de maneira sistematizada, com divisão de tarefas ilícitas (...) consistentes em exigir pagamento de resgate por um familiar falsamente sequestrado. Os criminosos coagem as vítimas a realizarem transferências (...) a 'laranjas', responsáveis pela circulação, repasse e dissimulação dos valores angariados, segundo as determinações da cúpula organizacional." - Trecho extraído do inquérito da Polícia Civil
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Crimes no sistema prisional
Rebeliões com mortes. Após um pedido de isolamento de membros da facção ter sido negado pela Seap em 2004, eles são suspeitos de dar início a uma rebelião que deixou oito internos mortos no presídio Ary Franco.
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O Povo de Israel também é suspeito de ter liderado outra rebelião em julho de 2021 no presídio Romeiro Neto, em Magé, que deixou um morto ao ter o corpo queimado e quatro internos feridos.
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Assassinatos por enforcamento. Dois internos do presídio Romeiro Neto foram encontrados mortos por enforcamento em 2022. Os crimes teriam sido motivados por suposto plano de sequestro da filha de um ex-detento que integrava a facção.
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O Povo de Israel também estaria investindo em aquisição e remessa de drogas para os próprios detentos nas unidades prisionais. Em setembro de 2023, policiais penais apreenderam drogas e celulares avaliados em R$ 1,5 milhão no presídio Nelson Hungria.
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A carga, que incluía cocaína e maconha, estava escondida em um caminhão que iria entregar refeições aos internos da unidade.
Policiais penais presos em flagrante com 200 tabletes de maconha. Também em setembro de 2023, inspetores do presídio Romeiro Neto foram detidos por suspeita de terem ocultado a droga no teto de um banheiro.
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Facção domina presídios e 'protege' estupradores
Estatuto "isenta" presos por estupro ou por outros crimes que poderiam torná-los vulneráveis a ataques de outros detentos. "Do portão pra dentro, zera tudo", diz o 1º mandamento do documento anexado ao inquérito da Polícia Civil, que investiga a facção criminosa por suspeita de movimentar mais de R$ 67 milhões em golpes do falso sequestro em dois anos (veja abaixo o estatuto do Povo de Israel).
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"No Povo de Israel, não é permitido falar 'estuprador', temos que falar 'amigo do artigo' porque o espaço é deles", diz o 2º mandamento. "O nosso lema é dormir e acordar tranquilo", cita a 3ª norma do grupo, indicando que detentos nesses presídios não são ameaçados de morte em decorrência dos crimes pelos quais foram presos.
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Presos por estupro, feminicídio ou ameaçados por facções foram recrutados nos últimos anos, segundo a Polícia Civil. Hoje, o Povo de Israel age em 13 presídios do Rio que abrigam mais de 18 mil detentos, superando a quantidade de internos ligados às facções que dominam o tráfico, como CV (Comando Vermelho) e TCP. A facção, inclusive, já teve conversas com o PCC, que queria permissão para batizar membros em presídios dominados pelo Povo de Israel.
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O que dizem os especialistas
"O Povo de Israel foi criado por presos por estupro, delatores e ameaçados de morte, que antes ficavam no 'seguro'. Depois, foram levados para três unidades prisionais. Eles eram isolados.(...)
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(...)Em um dos presídios, ficavam em uma espécie de porão na cadeia. Foi quando se organizaram e passaram a ter voz para exigir melhores condições. Ao longo dos anos, se especializaram em extorsão por telefone." - Anderson Sanchez, pesquisador e especialista em Segurança Pública
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"Quando há uma rebelião, quem morre primeiro são os estupradores. Abandonados e hostilizados pelos outros presos, eles agora decidem criar uma facção com um recorte da população prisional marginalizada pelo crime organizado para buscar proteção e também para lucrar com o golpe do falso sequestro pelo celular." - Ivana David, desembargadora do TJ-SP especialista em investigações sobre facções
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"É uma facção que também lucra com venda de celular, bebidas e drogas exclusivamente no sistema prisional, sem território no tráfico nas favelas do Rio. Ela controla os presídios que recebem expulsos do convívio prisional de outras facções, mas também os que se declaram 'neutros', que não querem ir para um presídio do CV ou do TCP por não terem relação com esses grupos ou porque uma declaração de vínculo pode impactar no processo." - Socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF
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Algumas Informações: Portal UOL
Direitos Autorais Imagem de Capa: Ministério Público do Rio de Janeiro/ Divulgação/ Reprodução/Polícia Civil do RJ
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