"Cuidar de alguém com Alzheimer não é apenas alimentar ou administrar medicamentos, o que é muito importante. Mas, também, é lidar com crises de agitação, de fúria. É sentir-se verdadeiramente só, nesse furação de reações comportamentais."
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Não saber mais o nome dos filhos. Desejar ir para casa, quando se mora nela há muito tempo. Estar esquecido de si. Tudo é sempre igual. Como é difícil estar ao lado de alguém, que a gente ama muito, que nos deu tudo, inclusive, a vida, e ver a luz da vela se apagar lentamente todos os dias.
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Vivenciei recentemente essa dor no meu ambiente familiar. Com muita angústia. Com muitas aprendizagens. Com sentimentos confusos e paradoxais. Morte e vida o tempo todo. O diagnóstico quando vem, é o início de uma jornada árdua.
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A Doença de Alzheimer é uma doença cruel. Não causa apenas a perda (progressiva) da memória. Desmorona subjetividades. Fragmenta histórias. Exige tempo, paciência e cuidados constantes dos cuidadores.
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E aí, ter mais de trinta anos de trabalho social com as pessoas idosas na cidade, não diminui o sofrimento da gente quando a doença está na família, está em casa.

Foto: Reprodução
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Ao mesmo tempo em que o Alzheimer avança silenciosamente dentro das nossas casas, como avançou na minha, onde o tempo é sempre o mesmo, de vigília e preocupação; fora delas, ele segue invisível.
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Quantas famílias recebem apoio psicológico? Quantos cuidadores têm formação adequada? Quantas políticas municipais existem para atender essa população? Grande parte das famílias cuida de suas pessoas idosas com Doença de Alzheimer sem nenhum apoio. Sem orientação. Sem amparo.
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De presença diária só contam mesmo com o desespero sem voz de quem vê o seu familiar se apagando, dia após dia. Essa é a realidade de centenas de juiz-foranos e de milhares de brasileiros diagnosticados com Alzheimer que encontram o abandono institucional no sofrimento do cuidado a essas pessoas idosas.
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São mães, filhas, esposos e netos que interrompem suas vidas, seus empregos para oferecerem cuidados intensos e prolongados. O que é pior: sem qualquer tipo de apoio do Estado.
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Essa tenha sido a demanda de alguns movimentos sociais europeus na exigência dos cuidadores para serem remunerados no exercício desse cuidado e levarem esse tempo para as suas aposentadorias. É a economia do cuidado, tecnicamente falando.
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Cuidar de alguém com Alzheimer não é apenas alimentar ou administrar medicamentos, o que é muito importante. Mas, também, é lidar com crises de agitação, de fúria.

Foto: Reprodução
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É sentir-se verdadeiramente só, nesse furação de reações comportamentais. Temos a invisibilidade de quem cuida, que raramente, são reconhecidos pelas politicas públicas, pelos sistemas de saúde e muitas vezes, até pelas próprias famílias.
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No Brasil, estima-se que mais de 1,2 milhão de pessoas tenham o diagnóstico da Doença de Alzheimer, segundo a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Com o envelhecimento acelerado da população esse número tende a crescer rapidamente.
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Temos a nossa ABRAz em JF. Nossa cidade precisa se preparar o quanto antes para responder a essa demanda, a esse grande desafio, que é oferecer cuidados e proteção social às pessoas idosas com Alzheimer.
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A pergunta é incômoda, mas necessária: que tipo de sociedade somos, se abandonamos justamente quem mais precisa de cuidado, de presença e de empatia? Quando a memória vai embora é o cuidado que deveria ficar.
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A Doença de Alzheimer não é só uma questão médica. Ela é um desafio social, político, econômico e ético. O esquecimento pode ser uma tragédia da biologia. O abandono, não. Quem vai cuidar das pessoas idosas dependentes?
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Jose Anisio Pitico
Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941
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Foto: Reprodução
Algumas Informações: Jose Anisio Pitico/ Tribuna de Minas
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