O doutor Augusto Cury diz que o atual modelo de educação não estimula o interesse pelo aprendizado e as crianças parecem ter tempo para tudo, mas não têm tempo para vivenciar a própria infância. Têm mil atividades, mas não conseguem lidar com o tédio e a ansiedade inerente à psique humana. Por outro lado, quem cria e envia o conteúdo pragmático para as escolas é o ministério da educação e quem envia crianças com telas para a escola são as famílias. Ou seja: não está tudo bem. Estado, escola, famílias… precisam repensar o presente e os riscos futuro da estrutura tal qual se apresenta.
O médico relaciona o excesso de informação, a pressão por rendimento escolar e a pouca atenção para o lado emocional das crianças aos casos de suicídio, que já considerado uma epidemia entre os jovens de 14 a 27 anos.

Para Augusto Cury as crianças e os adolescentes se tornaram escravos da informação e não têm mais tempo para viver a infância. Ainda que os pais, “desesperados”, assumam seus erros, ele acredita que é nas escolas que estão as grandes falhas. Ao focar unicamente no pensamento lógico, as instituições de ensino deixam de lado o controle emocional. segundo ele, está criando vícios e doenças, como a síndrome do Pensamento Acelerado, e afeta cerca de 80% de pessoas no mundo.
O que é inteligência emocional e como adquiri-la
A inteligência emocional não está inserida no código genético, ela é aprendida. Só que nós estamos falando de uma outra inteligência agora, que é a inteligência da gestão da emoção. Inteligência emocional é como se fosse uma montanha, a gestão da emoção é você implodir essa montanha, pegar os blocos, usar argamassa, pisos, azulejos e construir os vários edifícios. E quais são os edifícios? Aprender a pensar antes de reagir, trabalhar perdas e frustrações, filtrar estímulos estressantes, proteger a emoção, gerenciar a ansiedade, se reinventar no caos, desenvolver resiliência, trabalhar perdas e frustrações, ser generoso, ser altruísta e não ser autopunitivo.

As redes sociais e sua influência na gestão das emoções
A internet trouxe acessibilidade, expansão da produtividade, democratização das informações, mas trouxe também efeitos colaterais gravíssimos. Um deles é a intoxicação digital. Celulares podem viciar como drogas estimulantes, apresentando sintomas da síndrome de abstinência como a cocaína. Por exemplo, quando você retira por um ou dois dias o celular de um jovem que usa o aparelho por 3 ou 4 horas diariamente, ele vai ter síndrome de abstinência. Os sintomas são irritabilidade, baixa limiar para frustração, um tédio intenso, dificuldade de lidar com perdas e frustrações, transtorno do sono e, às vezes, humor depressivo. São as características básicas de uma síndrome de abstinência.
São as características básicas de uma síndrome de abstinência. E outra consequência importante: a geração minuto. Ou seja, tudo para eles têm que ser rápido e pronto. Essa geração aumentou os níveis de ansiedade numa velocidade nunca antes vista.
Como se caracteriza essa ansiedade e quais os sintomas
É uma ansiedade que eu tive o privilégio de descobrir e a infelicidade de saber que grande parte da população é acometida por ela. Chama síndrome do Pensamento Acelerado. Pensar é bom. Pensar com consciência crítica é ótimo. Pensar demais e sem gerenciamento é uma bomba contra a saúde emocional.

Os sintomas são acordar cansado, dor de cabeça, dores musculares, sofrimento por antecipação, dificuldade de proteger a emoção nos focos de tensão, dificuldade de conviver com pessoas lentas, transtorno do sono e déficit de memória. Se tiver dois ou três sintomas, já caracteriza a síndrome do pensamento acelerado. Essas pessoas precisam reciclar sua forma de vida, senão serão futuros pacientes de psiquiatras, médicos psicossomáticos ou de clínicos gerais.
Quais são as causas disso tudo
A causa é, em primeiro lugar, o excesso de informação. Uma criança de 7 anos de idade tem mais informações do que um imperador romano, uma de 8 a 9 anos tem mais informações que Sócrates, Platão e Aristóteles. Em segundo lugar, o excesso de atividade. Infelizmente nós estamos assistindo a um trabalho infantil escravo intelectual. Crianças que têm tempo para tudo, mas não têm tempo para ter infância. Têm mil atividades, mas não conseguem lidar com o tédio e a ansiedade inerente à psique humana.
E qual o papel da escola e dos pais diante disso?
Antigamente, os pais nunca assumiam que erraram na educação. Agora, como digo no livro que estou lançando (“20 Regras de Ouro para Educar Filhos e Alunos” Ed. Academia de Inteligência), os pais estão tão desesperados que já assumiram que falharam. E as regras de ouro precisam ser trabalhadas na educação, caso contrário, vamos continuar no erro. As escolas preparam os alunos para os hospitais psiquiátricos. Essa educação cartesiana que bombardeia o córtex cerebral com milhões de dados está doente.
Tensão psicossocial acirra debate sobre política de saúde
O que a população e a imprensa estão chamando de “crise coletiva de ansiedade” afetou, na semana passada, 26 alunos da Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Ageu Magalhães, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Com falta de ar, tremor e crise de choro, os adolescentes tiveram de ser socorridos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não precisaram de transferência para unidades de saúde.
Ainda que tenha obtido notoriedade — e motivado a interferência direta de um braço do serviço público de saúde — a ocorrência em Recife está longe de ser um caso isolado de manifestação psíquica exacerbada depois da fase mais aguda da pandemia, quando também cresceram os casos de violência doméstica, feminicídios e aumentaram as notícias de pais que mataram os próprios filhos.
Dados da Secretaria da Educação de São Paulo, divulgados pelo jornal Folha de São Paulo, dão conta de 4.021 casos de agressões físicas nas unidades estaduais de ensino nos dois primeiros meses de aula deste ano — 48,5% a mais que no mesmo período de 2019, o último de aulas presenciais antes da crise sanitária.
Um dos episódios emblemáticos desses tempos de tensão psicossocial foi o que envolveu em Planaltina (DF) um treinador físico, a esposa dele e um homem em situação de rua. Ao presenciar uma cena íntima entre o andarilho e a mulher, o treinador o retirou do carro em que eles estavam e o agrediu a socos e pontapés, mesmo com o agredido fora de combate. A história ganhou repercussão nacional pelo inusitado da relação, pelo contexto de violência e por embaralhar percepções sobre o estado em que se encontravam esses três personagens. "Achei que ele estava estuprando minha esposa", alegou o marido. Tanto ela quanto o mendigo, porém, garantiram que se tratava de um ato consensual, embora a mulher admitisse ter visto o rosto do próprio marido e de Deus na face do homem maltrapilho e sujo de quem se aproximara. Ela estaria passando por tratamento psíquico. Por fim, áudios com declarações da mulher vazaram para a internet e o andarilho, já convertido em celebridade instantânea, passou a dar entrevistas revelando detalhes do encontro, o que levou a uma onda de indignação, mas também de chacotas.
O que está acontecendo, ninguém tem certeza, na ausência de pesquisas de campo. No pátio das escolas e entre professores, especula-se que emoções reprimidas durante o isolamento social e a assimetria entre o ritmo dos ensinos virtual e presencial estariam entre as possíveis causas.
O fato é que, independentemente da trajetória que a covid-19 seguir daqui por diante, o impacto da doença será sentido por muito tempo em diversas esferas da vida humana. E foi visando preparar a saúde pública brasileira para as mudanças introduzidas pelo SarsCov-2 que o Senado aprovou, há um ano, projeto que cria um programa específico no Sistema Único de Saúde (SUS) voltado ao acolhimento de pessoas em sofrimento emocional causado pela pandemia — o PL 2.083/2020, do senador Acir Gurgacz (PDT-RO), que seguiu para a Câmara dos Deputados depois de modificado por emendas do relator, senador Humberto Costa (PT-PE), e outros senadores.
Além de buscar oferecer tratamento e apoio a pessoas emocionalmente atingidas pelo isolamento social, pela perda de familiares e pela própria covid, o autor mirou um futuro muito mais incerto do que aquele do mundo pré-coronavírus: “O programa poderá atuar para preparar a mente das pessoas para uma nova realidade de trabalho e vivência que surgirá nas mudanças advindas nas esferas administrativas públicas e privadas, novas formas de emprego, trabalho e relacionamentos”, escreveu o autor para justificar sua proposta. Por força de emenda do senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL), o projeto prevê a manutenção das medidas por pelo menos setecentos e trinta dias após o término do isolamento social.
Há indícios de que o pós-pandemia é um momento até mais crítico do que o durante a pandemia. De um ponto de vista social, a gente está caminhando para questões como desemprego, recuperação econômica, novo normal — alerta o psiquiatra André Russowsky Brunoni, doutor em Neurociências e Comportamento, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Diretor do Serviço Interdisciplinar de Neuromodulação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da mesma faculdade e pesquisador sênior do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).
Segundo ele, durante a Segunda a Guerra mundial, as taxas de suicídio foram “baixíssimas”, tanto do lado dos aliados quanto do Eixo, mas o quadro se inverteu ao final do conflito:
É interessante ver que num momento de grande crise as pessoas tiveram resiliência, mas, depois da guerra, e principalmente nos países derrotados, houve um grande aumento [dos casos de suicídio].
De acordo com o senador Acyr Gurgacz, o isolamento potencializou os efeitos da covid sobre o relacionamento sócio-familiar e as relações econômicas, na medida em que dificultou, ou mesmo impediu, o “apoio imediato da família, dos amigos e dos profissionais de saúde, como psiquiatras e psicólogos”, nos momentos de abalo emocional. Ele destacou os idosos entre os grupos mais suscetíveis à depressão, ansiedade e suicídio em períodos de circulação restrita.
Marcos Garcia, doutor em Psicologia Social e professor associado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), elenca entre os grupos mais vulneráveis o das pessoas que passaram por problemas financeiros maiores ou estiveram expostas à vulnerabilidade socioeconômica e a população de jovens.
Mundialmente sabe-se que jovens, especialmente mais até do que crianças, pré-adolescentes, adolescentes, foram os grupos mais afetados. Isso se explica, especialmente, em função da perda de espaços de socialização, de escola, de amizade, que são fundamentais para todos nós, mas afetam mais as pessoas jovens — explica Garcia, que é membro do grupo de pesquisa Saúde Mental e Sociedade, com trabalho de campo voltado a estudantes e também a políticas de saúde mental durante a pandemia.
Reportagem publicada pela Agência Senado no dia 8 apresenta depoimentos de professores e diretores bastante preocupados com a saúde mental dos jovens no retorno às aulas presenciais. Há muitos casos de ansiedade, depressão, síndrome de pânico, agressividade e auto-mutilação.
Além das próprias restrições impostas em função da covid, uma das dificuldades em se avaliar com rigor o que tem se passado na cabeça e no coração dos brasileiros desde que a pandemia começou, em março de 2020, é a falta de pesquisas abrangentes e sequenciadas abordando um mesmo grupo de indivíduos escolhidos dentro de uma amostra representativa da população.
A percepção geral, refletida na imprensa e nas redes sociais, é de que aumentaram manifestações como ansiedade e depressão e houve crescimento da procura por consultas com psiquiatras e psicólogos e consumo de psicotrópicos e bebidas alcoólicas. Relacionadas às medidas restritivas de circulação, aumentaram os conflitos, inclusive com agressões e mortes, em torno de medidas de segurança sanitária, como o uso de máscaras. Não foram poucos, igualmente, os episódios de violência contra equipes de saúde nos locais de vacinação e os dramas de pacientes, internados ou não, em meio a uma moléstia devastadora. Até o momento, a covid atingiu 30 milhões de pessoas no país e matou mais de 660 mil, segundo os números oficiais.
Levantamentos pontuais detectaram no calor da hora a elevação dos transtornos mentais. Entre eles, o das unidades de Brasília e Mato Grosso do Sul da Fundação Oswaldo Cruz, que registrou as respostas de profissionais de saúde em várias especialidades, como enfermeiros e dentistas. No Distrito Federal, entre dezembro de 2020 a abril de 2021, 61,6% dos 831 que responderam a pesquisa relataram a percepção de sintomas variáveis (de leve a extremamente severo), de ansiedade. Percentual muito parecido (61,5%) relatou sintomas de depressão, e 65% relataram sintomas de estresse.
Antes da pandemia de COVID-19, estavam em tratamento ou acompanhamento psicológico ou psiquiátrico 196 desses profissionais, mas o contingente aumentou em 13,9% no período pesquisado e chegou a 309.
A pesquisa divulgada mais recentemente, Avaliação do Futuro, foi realizada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna. Dois em cada três estudantes do 5º e 9º ano do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio da rede estadual relatam sintomas de depressão e ansiedade. De 642 mil alunos, um em cada três estudantes afirmou ter dificuldades para conseguir se concentrar no que é proposto em sala de aula. Outros 18,8% relataram se sentir totalmente esgotados e sob pressão, ao passo que 18,1% disseram perder totalmente o sono por conta das preocupações. A perda de confiança em si foi expressa por 13,6%.
“A avaliação mergulha nos danos severos à educação causados pela pandemia e reforça o desenvolvimento socioemocional como mola propulsora para a aprendizagem e outras conquistas ao longo da vida. A análise dos dados ainda revela a importância direta das competências socioemocionais para o aprendizado e o seu impacto em outros aspectos que afetam a aprendizagem indiretamente, como saúde mental, violência e estratégias de aprendizagem”, diz um informe da fundação.
Fonte: Portal Raízes / Agencia Senado
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