Foi feito uma entrevista com mulheres que se relacionam com mulheres as experiências que elas com o rebuceteio e o que elas acham dessa prática.
A ex da sua ex é melhor amiga da sua atual e todas já se pegaram? Se você está achando essa história estranha, saiba que no mundo das mulheres que se relacionam com mulheres isso é algo bem comum e tem até nome: rebuceteio. O rebuceteio nada mais é do que um grupo de mulheres no qual todas já se relacionaram entre si, seja um namoro de anos ou apenas uma ficada. É algo bem comum de acontecer com as lésbicas, bissexuais e pansexuais.
Talvez tenha gente que estranhe essa dinâmica, mas as mulheres com as quais conversamos garantem que não tem nada de demais nisso. Na verdade, elas enxergam o rebuceteio como algo lindo e prova que “o que é bom é para ser compartilhado”. Um detalhe importante: precisa ter maturidade para não rolar crises de ciúme desnecessárias.
Quem é ex de quem?
"Os nomes são fantasia. Laura namorava Julia. Terminaram e Julia começou a namorar Maria. Maria me conheceu e terminou com a Julia para namorar comigo. Depois de dois anos terminamos e eu comecei a namorar Laura. Ou seja, minha ex é ex da ex da minha atual, ou minha atual é ex da ex da minha ex. Tudo!", 21 anos
Mais que colegas de time, ex-ficantes

Giovanna Pereira conta sua história com o rebuceteio;
"Eu e minha namorada fazemos parte do time futsal feminino da faculdade. Com isso, virei amiga das meninas. Porém, eu já as conhecia e até fiquei com algumas (e a minha namorada também). Ou seja, tem meninas que minha namorada já pegou e eu também. Não afeta nada no relacionamento e na amizade com as garotas, somos super amigas. Antes da pandemia, a gente se via todos os finais de semana e até nos dias de semana com os treinos." Giovanna Pereira, estudante de psicologia, 21 anos.
Todo mundo é gado
"Eu namorava e tinha uma melhor amiga que namorava outra garota. Eu acabei ficando com a minha melhor amiga. Ambas terminamos, mas minha ex quis voltar comigo. Assim que voltamos, ela me traiu com uma menina. Ou seja, rolou chifre para todo lado. Depois disso, todo mundo terminou. Tempos depois, eu acabei ficando com uma garota, era a que me meteu chifre com a minha ex. Não foi para provocar nem nada, porque já estava tudo resolvido. Minha ex já estava até namorando de novo. Hoje, está tudo certo e todas são amigas.”, jogadora de futebol, 18 anos.
Senta que lá vem história
"São vários. Eu fiquei com uma menina por uns cinco meses, mas me apaixonei pela melhor amiga dela e nós namoramos por quatro anos. Outra história é que uma das minhas melhores amigas já me apresentou para ex namorada dela e a gente ficou, mas não teve nada sério. Eu também já me apaixonei por uma menina que conheci em um rolê e depois descobri que ela era ex namorada de uma menina que estudou comigo no ensino médio. Hoje em dia, elas não se falam e eu falo com as duas.", 27 anos.

"Eu namorava uma guria que eu conheci no busão. Minha amiga estava comigo no dia em que a conheci. Namoramos por alguns meses só. Depois que tudo acabou, ela e minha amiga ficaram e, dois dias depois, elas estavam namorando. No começo fiquei meio 'assim', mas depois ficou tudo bem. Elas namoraram por quatro anos.” Jessica Ramos, atendente de telemarketing, 20 anos.

"Eu namorava uma menina que morava no Nordeste. Moro em Curitiba. Quando terminamos, eu já tinha pago as passagens para ela vir para cá. Então ela veio do mesmo jeito — e sem me avisar. Ela ficou com uma menina em Curitiba e, meses depois, eu fiquei com uma amiga minha que ela tinha muito ciúme. Acabamos descobrindo que essa minha amiga está namorando a menina que ela ficou quando veio para cá. Todo mundo se odeia," Mariana Lira, estudante de Direito, 21 anos.

"Eu me apaixonei pela menina que uma das minhas melhores amigas estava apaixonada. Comecei a ficar com ela e me resolvi com a minha amiga. Tudo tranquilo. Detalhe: eu já tinha ficado com essa minha amiga e elas já tinham ficado também. Certo dia, depois de apresentar meu TCC e tirar dez (as duas citadas acima também faziam parte do meu grupo), fomos para o boteco comemorar. A menina que eu gostava sumiu do nada. Queríamos ir para outro bar e ela não aparecia. Quando já estávamos no carro, a princesa apareceu.
Ela foi em um carro e eu em outro. Dentro do carro que eu estava, éramos quatro meninas que já tinham ficado entre si. Passamos para buscar outra (que a motorista ficou no final desta noite) e entraram mais duas meninas: uma que a maioria já tinha ficado e outra que entrou berrando. Ela estava discutindo com a ex, que era a garota que eu estava ficando e que sumiu no boteco. Ela seguiu berrando sobre isso no carro. Ficou um climão. Chegamos no bar e o climão explodiu." Bruna Fadel, produtora audiovisual, 24 anos.
“Rebuceteio é liberdade, confiança e prazer. Não é só sexo, é conversa e se ajudar”
Há uma particularidade pouco conservadora do amor romântico entre mulheres: é comum uma lésbica se envolver com a ex da ex, que no futuro se envolverá com outra ex da atual, em uma corrente chamada por elas de rebuceteio. Investigamos a dinâmica que pode causar conflitos, mas também construir uma rede de apoio em uma comunidade marginalizada.

Era um dia perfeito de verão, calor e céu azul. Gavi, 31 anos, estava no litoral do Espírito Santo e combinou de ir à praia com uma amiga com quem havia namorado anos antes. Queria botar o papo em dia, aproveitar a manhã com os pés na areia. Quando chegou ao encontro, a surpresa: uma ex sua, mais recente, estava a caminho.
“Na hora estranhei, e perguntei se estava rolando alguma coisa entre as duas”, conta a cantora e compositora capixaba. Sim, elas estavam juntas. E faltava ainda chegar a última convidada do grupo: a atual namorada de Gavi. Entre drinques e risadas, as quatro curtiram juntas o dia de sol.
Quando se viu entre as ex, no inescapável momento de tirar uma selfie para postar nas redes, Gavi olhou para os lados e pensou: “É isso. Namorei as duas, hoje somos um grupo de amigas e elas ficam entre si”, relata a cantora.
Essa – vamos chamar assim – “configuração”, em que mulheres de um mesmo círculo social se relacionam afetivamente com as ex-namoradas (ou companheiras ou peguetes) de suas antigas parceiras, é conhecida como rebuceteio – comportamento tido como “elementar” na comunidade lésbica. Como diz a máxima: os móveis só mudam de lugar.

“Esse caso foi positivo, porque houve uma espera de anos após os términos, então estava todo mundo na amizade. Já tínhamos ultrapassado o lance do afeto sexual. Mas se não for feito com respeito e diálogo, pode ser bem bad”, diz Gavi. Segundo faz questão de frisar, nesse tipo de relacionamento, conflitos e rusgas podem surgir – como em qualquer outro.
Ainda assim, o rebuceteio é tão presente na vida da mulher lésbica que se tornou algo natural, até tratado na brincadeira e parte do vocabulário e da identidade da comunidade. Vídeos de humor sobre o assunto acumulam centenas de milhares de visualizações no TikTok e no Instagram.
“Vitória Strada sobre relacionamento aberto: Se ela se interessar, vamos conversar”
Um deles, intitulado "Como funciona o rebuceteio? Parte 01", já com mais de 2,5 milhões de acessos, mostra quatro mulheres sorridentes sentadas ao redor de uma mesa de restaurante. A narradora começa a apresentá-las: “Essa é minha namorada. Essa é a ex da minha namorada. Essa é a praga da minha ex. E esse é o casal atual, povo”. As duas últimas brindam, então, com uma taça de vinho.
São diversos os fatores que podem explicar essa teia de afetos ao mesmo tempo mutáveis e contínuos, muito própria do amor entre mulheres, que Gavi classifica como “inevitável”. “Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor”, diria o escritor Rubem Braga na crônica As boas coisas da vida. Se no universo heterossexual é um tabu ficar com ex de amiga ou amigo de ex, na comunidade sapatão essas relações costumam acontecer de forma mais livre e permitida.
A falta de locais voltados para mulheres lésbicas nas cidades, onde se sintam seguras e à vontade para viver seus afetos à luz do dia – e, portanto, os encontros recorrentes nos mesmos lugares – é uma dos motivos que levam à prática do rebuceteio.

A pesquisadora de políticas de saúde pública e ativismo de mulheres lésbicas na Universidade Federal do Mato Grosso, Bruna Andrade Irineu, 37, aponta que o aumento de espaços de consumo para os públicos LGBTQIAP+ é relativamente recente. “E a maioria é frequentado por homens gays”, diz. Segundo ela, a socialização das lésbicas em cidades do interior ou fora da região Sudeste acontece muito mais em casas de amigos.
“As cidades não foram feitas para as mulheres, de modo geral. Entre as lésbicas e mulheres bi, há uma urgência por espaços mais tranquilos para circular”, avalia Bruna. “A gente tem uma certa repulsa pelos lugares públicos que não são feitos para mulheres, de sociabilidade marcada pela hegemonia do masculino. Dificilmente você vai encontrar meninas lésbicas fazendo uso de um bosque, por exemplo, para a pegação – prática marcada pelos garotos gays”, diz a pesquisadora.
Bruna afirma ainda que o rebuceteio carrega certa dubiedade: se por um lado pode significar a liberdade de construir relações menos heteronormativas, por outro é sintoma de um isolamento social e busca por segurança. “Na mesma medida em que pode abrir caminhos para relações menos marcadas por posse e ciúmes, é também um elemento significativo do armário, que marca a nossa sociabilidade”, afirma.
Ela explica: “As novas gerações possivelmente vivem outros dilemas, mas para as anteriores passamos muito tempo uma vida paralela, de segredo, e criamos essa rede com um grupo menor de pessoas que compartilham dessa vivência.”

Para Bruna, a capacidade de transitar nessa fluidez de afetos vem menos de uma postura crítica contra opressões da heteronormatividade e monogamia, e mais por uma questão de sobrevivência: “É o que nos resta. Ou constituímos uma solidariedade entre nós e reconhecemos que é importante ter aquela pessoa na vida, ou a gente caminha só.”
Fonte: Revista Marie Claire / Queer IG
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