"Queria muito que a gente tivesse, desde pequeno, uma educação para a vida que nos ensinasse a morrer. Deixar para pensar na morte somente no envelhecimento não é bom e podemos não ter tempo para a preparação de nossa despedida."
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Jose Anisio Pitico - Em algumas páginas da literatura estrangeira e mesmo nas páginas da literatura nacional, a velhice aparece representada pela estação do outono; quando não muito, pelo inverno. Ou seja. É uma época da vida, ou melhor, da natureza, em que as árvores começam a perder as folhas preparando-se para o inverno.
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De imediato podemos fazer uma comparação com a nossa vida: na passagem do tempo vamos ficando secos e com frutos caídos no chão despencados do nosso tronco. Será que é mesmo assim? Trata-se de uma fatalidade? Acredito que não.
Se essa árvore for bem cuidada, sem parasitas, teremos renovação. Como aconteceu com o pé de manga do quintal da casa da minha mãe. O Luiz fez a poda e vieram novas folhas.
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Hoje o pé está em plena floração e já está com alguns frutos vistosos, sendo alvos preferidos das nada silenciosas, maritacas. Existe sim, essa imagem negativa sobre essa fase da nossa vida; essa imagem invernal, fria e fechada da velhice.
Como também existe uma outra associação fácil de ocorrer, que tem a ver com essa, que é a de que esse tempo é o tempo que não tem futuro, é o tempo da morte. Como se naturalmente envelhecer correspondesse a adoecer, e portanto, estamos bem próximos da morte.
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A vida não tem lógica. Não tem lógica nenhuma. Morrer a gente já traz com a nossa vida. Como também trazemos muitos instantes em que nascemos e renascemos. Trazemos todas as estações da natureza em nosso tempo de vida. Nascemos e morremos em qualquer idade. E o certo é que para mim o luto não passa, ele fica em mim, está em mim.
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Pode não estacionar, mas parar, para. Para e fica. É uma pena que só temos um dia no calendário social para lembramos da morte, da morte dos nossos entes queridos. Como foi o dia de ontem. Queria muito que a gente tivesse, desde pequeno, uma educação para a vida que nos ensinasse a morrer.
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Deixar para pensar na morte somente no envelhecimento não é bom e podemos não ter tempo para a preparação de nossa despedida. É o que acontece, geralmente: ficamos numa correria danada para providenciar o sepultamento. Muita papelada.
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Muitas das vezes, nesse momento de tristeza, de perda, de luto, temos pouquíssimas condições emocionais de assinar algum documento. A morte não poderia nos pegar com a “calça na mão”. Por isso, eu penso que nós precisamos conversar sobre a morte (a nossa, a minha) em vida.
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Que os nossos desejos e nossas vontades sejam expressos em família e entre amigas e amigos na véspera de nossa viagem. Sendo assim, nessa nova educação, eu acredito que, certamente, o envelhecimento seria menos rejeitado e menos indesejado.
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Leia Mais:
Aspecto Cultural e Filosófico da Morte e Envelhecimento
O aspecto cultural e filosófico da morte e do envelhecimento é um tema complexo e fascinante, pois toca em como diferentes sociedades, filosofias e épocas interpretam e lidam com a finitude da vida. A maneira como cada cultura vê a morte e o envelhecimento revela muito sobre seus valores, crenças e o que consideram importante na existência humana.
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Visões Culturais sobre a Morte e o Envelhecimento
Em algumas culturas orientais, como no Japão, a morte e o envelhecimento são vistos como partes naturais e valiosas do ciclo de vida. O idoso ocupa um lugar de sabedoria e respeito, e o envelhecimento é frequentemente celebrado, com datas especiais e rituais que exaltam a contribuição dos mais velhos.
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Os japoneses celebram o Keiro no Hi, ou “Dia de Respeito aos Idosos”, o que destaca a valorização da experiência e da sabedoria. Já em muitas culturas indígenas, os anciãos são os guardiões das tradições e da sabedoria do grupo, tendo um papel central na preservação da cultura e na tomada de decisões importantes.
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Por outro lado, no ocidente contemporâneo, a morte e o envelhecimento são, muitas vezes, vistos com medo e rejeição. Existe uma obsessão pela juventude, reforçada pela indústria da beleza e pela medicina moderna, que busca prolongar a vida e adiar os sinais do envelhecimento.
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Nesse contexto, envelhecer e morrer são frequentemente associados à perda de relevância e produtividade, levando ao que alguns sociólogos chamam de “invisibilidade social” dos idosos. A cultura ocidental, de modo geral, tende a evitar discussões sobre a morte e o envelhecimento, tratando-os como tabus e promovendo a busca por juventude e longevidade a qualquer custo.
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Perspectivas Filosóficas sobre a Morte e o Envelhecimento
Filosoficamente, a consciência da morte é fundamental para a compreensão do sentido da vida em várias correntes de pensamento. Na filosofia existencialista, por exemplo, a morte é vista como um componente essencial da existência humana, uma vez que a consciência da finitude nos impulsiona a dar sentido à nossa vida.
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Para o filósofo Martin Heidegger, “ser-para-a-morte” é uma condição inevitável que nos lembra da urgência de viver de maneira autêntica, assumindo responsabilidade por nossas escolhas e nosso destino.
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No estoicismo, uma filosofia praticada na Grécia e Roma antigas, a morte é vista como um evento natural, inevitável e, portanto, não deve ser temido. Os estoicos acreditam que aceitar a mortalidade nos liberta para viver de forma mais plena, mantendo o foco no presente e no que está sob nosso controle.
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Eles praticavam o memento mori — uma meditação constante sobre a morte — para lembrar a si mesmos de que a vida é breve e, assim, tomar decisões mais conscientes.
Outra perspectiva interessante é oferecida por filósofos orientais, como no budismo, onde a impermanência é um princípio central.
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Para os budistas, a compreensão da morte e da transitoriedade de todas as coisas é essencial para o despertar espiritual, pois permite que as pessoas desapeguem dos desejos mundanos e aceitem a natureza efêmera da vida. Essa visão leva a uma preparação espiritual para a morte, encarada não como o fim, mas como uma transição.
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Conclusão
A diversidade de abordagens culturais e filosóficas à morte e ao envelhecimento revela que esses fenômenos podem ser vividos de forma enriquecedora e digna, dependendo do contexto em que se inserem.
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Enquanto algumas culturas promovem uma aceitação serena e até celebrativa da morte e da velhice, outras veem esses aspectos da vida com desconforto, frequentemente lutando para negá-los ou adiá-los.
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Ao refletir sobre esses diferentes modos de ver a morte e o envelhecimento, percebemos que o modo como escolhemos encarar nossa finitude pode determinar a qualidade e o sentido de nossa existência.
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Uma vida bem vivida, consciente da própria fragilidade e limitada, nos permite valorizar mais intensamente os momentos, as relações e as escolhas que fazemos, integrando a morte como parte do que nos torna profundamente humanos.
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Jose Anisio Pitico
Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade.
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Algumas Informações: Portal Tribuna de Minas
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